30 de abril de 2010

Meme de cinema dos 30 dias

Vou fazer uma coisa diferente. Vou tentar, durante os próximos 30 dias, escrever um post por dia seguindo um meme que vi por aí. São 30 dias falando sobre cinema, cada dia um filme sobre o qual eu tenho uma opinião específica. "O melhor filme que vi no último ano", "o filme que mais me decepcionou", "o meu filme preferido com meu ator/atriz favorito", etc. Vai ser um desafio bom, ainda mais porque tenho férias nesse período então devo acumular alguns textos e deixar programados.

Mas vai ser divertido. Abaixo, a lista completa e a data prevista para publicação* (sim, eu fiz no Excel). Todos eles serão publicados com a tag Cine30, assim fica mais fácil para encontrar.

*O do dia 29 de abril será publicado no dia 30, porque já passou da meia-noite.

23 de abril de 2010

A mil beijos de distância

Há muitas versões para este poema, acho que o Leonard Cohen ainda o considera um trabalho em andamento. Ele recitou uma parte no show que virou DVD, e eu gostei tanto (e ouvi tanto) que me deu vontade de traduzir. Sabe como é: tradutor, traidor transcriador. Tentei manter a métrica, as rimas e o sentido, foi desafiador.
Segue a tentativa, o original (conforme recitado no show) e o video.

A mil beijos de distância
Como se eu fosse carne
você veio e me tocou.
Você teria que ser homem
pra ver como isso é bom.
Alma gêmea, de sangue irmã.
De um sonho, uma lembrança.
Quem mais me chama de manhã
a mil beijos de distância?

Amei como se abria,
como um lírio, com um sorriso.
Sou só uma estátua fria,
de pé na chuva e no granizo,
que te ama com seu amor frio,
com um corpo que se cansa.
Tudo o que sou, tudo o que fiz
a mil beijos de distância.

Você mentiu pra mim, entendo.
Traiu-me por não ter opção.
Pra estar no alto, ardendo
atrás do véu da decepção.
Atriz pornô, aristocrata,
vulgar com elegância.
Sou velho, mas sinto sua falta
a mil beijos de distância.

Eu sei amar, sei odiar,
No meio é que me engano.
Estou tentando, mas já é tarde
É tarde há muitos anos.
Você está linda, eu bem lhe disse,
Um elogio não lhe alcança.
Eu ajoelharia, se conseguisse,
A mil beijos de distância.

O outono lhe arrepiou de espanto,
obscureceu-me a vista.
A luz tem que brilhar, no entanto
não faz questão que exista.
Charada do livro do amor,
obscura e sem importância,
até ser lida com sangue e dor,
a mil beijos de distância.

Cheio de vinho, o peito protesta,
seu rosto ainda no meu.
A banda avisa: é o fim da festa;
coração não diz adeus.
Corri com Diz, cantei com Ray,
nunca soube essa dança.
Quando deixaram, eu toquei
a mil beijos de distância

Amei como se abria,
como um lírio, com um sorriso.
Sou só uma estátua fria,
de pé na chuva e no granizo,
que te ama com seu amor frio,
com um corpo que se cansa.
Tudo o que sou, tudo o que fiz
a mil beijos de distância.

Mas não me dê atenção agora.
O que digo com ânsia
depõe contra mim qualquer hora,
a mil beijos de distância.


A thousand kisses deep
You came to me this morning
and you handled me like meat.
You’d have to be a man to know
how good that feels, how sweet.
My mirrored twin, my next of kin,
I’d know you in my sleep
and who but you would take me in,
a thousand kisses deep.

I loved you when you opened
like a lily to the heat,
you see I’m just another snowman
standing in the rain and sleet,
who loved you with his frozen love,
his second hand physique,
with all he is, and all he was,
A thousand kisses deep.

I know you had to lie to me,
I know you had to cheat,
to pose all hot and high
behind the veils of shear deceit,
our perfect porn aristocrat
so elegant and cheap,
I’m old but I’m still into that,
A thousand kisses deep.

I’m good at love, I’m good at hate,
its in between I freeze.
Been working out, but its too late,
it’s been to late for years.
But you look good, you really do,
they love you on the street.
If I could move I’d kneel for you,
a thousand kisses deep.

The autumn moved across your skin,
got something in my eye,
a light that doesn’t need to live,
and doesn’t need to die.
A riddle in the book of love,
obscure and obsolete,
until witnessed there in time and blood,
A thousand kisses deep.

And I'm still working with the wine,
still dancing cheek to cheek,
the band is playing Auld Lang Syne,
but the heart will not retreat.
I ran with Diz and I sang with Ray,
I never had their sweep,
but once or twice they let me play
A thousand kisses deep.

I loved you when you opened
like a lily to the heat,
y'see I'm just another snowman
standing in the rain and sleet,
who loved you with his frozen love,
his second hand physique,
with all he is, and all he was,
A thousand kisses deep.

But you don’t need to hear me now,
and every word I speak,
it counts against me anyhow,
A thousand kisses deep.

24 de fevereiro de 2010

Porque me tornei vegetariano

The Dawn of Vegetarianism: Lisa Simpson and the Lamb and some Lamb Chops
Em 1 de fevereiro de 2010, eu me tornei vegetariano.

Desde então, ouço quase diariamente a perguntas como "por quê?" e "mas nem peixe?"

A resposta mais simples para a primeira é que isso é algo em que eu já estou pensando há muito tempo, já vinha tentando aos poucos, aí conversei com algumas pessoas, li algumas coisas e decidi.

O que eu não disse é O QUE eu tenho lido. Não quero ser um daqueles vegetarianos chatos que tentam converter o mundo ao vegetarianismo. Sinto que não é assim que funciona, porque quando eu comia carne eu conheci desses vegetarianos e eles não me convenceram. Ninguém vira vegetariano por pressão.

O outro lado disso são os onívoros que tentam convencer os vegetarianos a comer carne. Pela minha experiência, são mais chatos que os anteriores. Vegetarianismo é normalmente uma opção consciente, então um onívoro tentar desconverter um vegetariano é perda de tempo.

Então, nesses casos, eu explico os motivos reais.

Eu não acho errado comer carne. Eu não deixei de gostar de carne. Eu não me arrependo de ter comido carne durante 25 anos da minha vida. Várias vezes eu já me peguei pensando na vaquinha, no porquinho, na galinha e no peixinho, em como eles são animaizinhos tão fofos, inteligentes e sensíveis à dor quanto o meu gato ou o meu vizinho. E pensei: por que comemos vaca e não comemos gato? Só porque o peixe não grita ele não sente dor? Porque é ok pescar um peixe e matá-lo asfixiado, mas essa não é a prática aceitável para abater uma vaca?

Não foi o argumento da crueldade que me convenceu. Talvez pela minha ignorância dos métodos utilizados - já li, já vi videos, mas uma parte de mim faz questão de esquecer isso, e acho até bom. A dor existe para todos os seres vivos e é inevitável, assim como a morte. Acontece na natureza. O salmão come os peixes menores, o urso come o salmão. Já ouvi dizerem que o ser humano foi dotado de uma inteligência superior e de polegares opositores para ter controle sobre os outros animais, porque é superior a eles. Mas note: o ser humano não precisa comer os outros animais. É possível sobreviver sem carne. Ao optar por comê-los, portanto, o ser humano torna-se mais um elo na cadeia alimentar. Não se mostra superior aos outros animais, mas igual a eles. O salmão come os peixes menores, o ser humano come o salmão. (Esse é o ponto em que discordo do Jonathan Safran Foer, que escreveu Eating Animals. Ele acha que comer carne é um reflexo da negação da sua própria natureza animal. Eu acho que, comendo carne, nós involuntariamente nos colocamos no mesmo nível deles.)

Se não foi o argumento da crueldade que me convenceu, sobram dois: meio ambiente e saúde. Sobre o primeiro, vale a pena ler o post de hoje no blog do Guardian sobre o assunto. Resumão dos dados:


  • A pecuária produz mais gases de efeito estufa do que todos os trens, carros, caminhões, navios e aviões do mundo juntos. Sim, estamos falando de peido de vaca, mas não só disso. A agricultura animal é responsável por 37% do metano, que é 23 vezes mais perigoso para o aquecimento global do que o CO2, e 65% do óxido nitroso, 296 vezes mais perigoso para o aquecimento global do que o CO2.
  • Os recursos consumidos por um onívoro médio em busca de proteína animal poderiam nutrir até 10 vegetarianos.
  • Isso sem falar no impacto do processamento e do transporte da carne que chega até a sua mesa.
  • Peixe: o peixe mais consumido no mundo é o atum. Na pesca industrial do atum, 145 espécies de animais acabam caindo nas redes de forma secundária. Morrem e são jogadas de volta para o mar. São outras espécies de peixes, arraias, tubarões, enguias, alguns mamíferos e algumas aves marinhas. Estima-se que, de cada 10 atuns, tubarões ou outras espécies de peixes predatórios que viviam nos oceanos há 50 ou 100 anos atrás, hoje em dia resta apenas 1.
  • Camarões: verdade, muitos são criados em cativeiro (50% dos peixes e frutos do mar consumidos hoje são de aquacultura). Há casos de fazendas de camarão que destroem ecossistemas importantes, como os manguezais, mas não vou generalizar. No caso dos camarões pescados diretamente do mar, para cada quilo que chega à nossa mesa, até 26 quilos de outros animais marinhos foram mortos e jogados de volta no mar.
  • Salmão: para criar em cativeiro, é necessário de 3 a 5 quilos de outros peixes para produzir 1 quilo de salmão.
Para cada um desses argumentos deve haver outro para rebater. A cultura de soja desmata a Amazônia, os agrotóxicos poluem, os transgênicos fazem mal. Há quem negue que o aquecimento global seja causado pelo ser humano, e há quem diga que é parte de um ciclo natural do planeta. Não é um assunto simples. Mas, por via das dúvidas, vou fazer a minha parte.

Não é um sacrifício tão grande assim. Com a mudança de dieta, comecei a descobrir novos alimentos e a prestar mais atenção no que eu como. Antes eu comia qualquer coisa, sem pensar por um minuto se eu realmente precisava daquilo ou se me faria bem. Agora, tomo mais cuidado com o que coloco no meu prato, tentando sempre compensar a falta de proteína animal com outras fontes de proteína - soja, laticínios, feijões, brotos. Agora que sei que eu preciso de cerca de 50g de proteína por dia, aqueles hambúrgueres de 150g me parecem um exagero. E não é um sacrifício grande. Se você parar para pensar, vai ver que mais de 80% das coisas que você come não contém carne, ou poderiam não conter.

A carne, especialmente no Brasil, é um produto banal. Está disponível em uma quantidade muito maior do que a que nós precisamos. Antigamente, para se obter carne, era preciso caçar um antílope ou matar uma galinha. Não era todo mundo que comia carne todo dia. Carne era praticamente um artigo de luxo. De lá para cá, as nossas necessidades nutricionais não mudaram muito. Nós continuamos não precisando de toda essa carne que nos é oferecida. Eu optei por não comer mais, mas acho que qualquer esforço para reduzir a quantidade também é válido.

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