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19 de junho de 2010

Rouco de tanto silêncio

Esses dias que passo sozinho, em que praticamente só vocalizo as palavras da gentileza (bom dia, com licença, por favor, obrigado), têm em mim um efeito parecido com uma noite no karaokê.

Fico rouco.

A garganta, seca e atrofiada, arranha. Estranha.

Quando finalmente falo, a voz sai fraca, trêmula, grave, insegura, baixa. Eu mesmo não reconheço.

* * *

Esses dias que passo sozinho devem ser a única coisa boa de estar solteiro. Não faço planos, ou se faço, mudo e não preciso convencer ninguém.

Hoje fui ao centro levar a velha câmera do meu pai para consertar. Larguei o carro na estação e fui de metrô, que é bem mais fácil ir para o centro de metrô. Na volta, decidi ir até um laboratório em Pinheiros pra deixar uns rolos, e aproveitaria para conhecer a nova linha amarela.

Mas por enquanto a linha amarela só funciona em dias de semana, então mudei de planos. Desci no MASP e tirei algumas fotos. Deu vontade de entrar, mas passou.

Deu vontade de ir até o SESC Paulista. Fui andando pela Paulista, passei na frente do Centro Cultural Fiesp. Deu vontade de entrar, entrei. Exposição fotográfica da Maureen Bisiliat, inglesa que veio pro Brasil em '57 e nunca mais foi embora. Fotografou os sertões de Euclides da Cunha, o sertão de Guimarães Rosa, o xingu dos Villas Boas, China, Bolívia, Japão.

Havia uma sequência de uma vila de pescadores. Ele teciam suas próprias redes, iam para o mar em seus próprios barcos, pescavam seus próprios peixes. Tão artesanal, equilibrado, inofensivo.

Pensei que se eu estivesse lá, comeria aquele peixe. Mas a última foto era de um golfinho morto, preso naquela rede.

Saí, continuei andando em direção ao SESC, cruzei a Pamplona, lembrei da Goóc e deu vontade de entrar. Estou procurando uma carteira nova, mas você sabe como é difícil achar uma carteira que não seja feita de couro?

Na Goóc tem, mas eu não gostei.

Deu vontade de almoçar. O Cheiro Verde era ali perto. Comi tofu. Era bastante comida mas não pesou nada no estômago. O pudim de laranja vale o retorno.

Voltei a andar, passei na frente de um lugar que eu queria ir há algumas semanas. Por sinal, eu havia me programado para ir hoje, mas esqueci. Olhei no relógio, tinha acabado de fechar.

O bom de ser solteiro é que se você não faz uma coisa que tinha planejado, a única pessoa que você desaponta é você mesmo.

Cheguei ao SESC e estava fechado. Em reforma. O Itaú Cultural, em frente, estava com programação do Sganzerla. Deu vontade de entrar, mas passou.

Passei na frente da Casa das Rosas. Deu vontade de entrar, entrei. Andei pelo jardim, andei pelo terraço, andei pela varanda. Entrei na biblioteca, escolhi um livro e comecei a ler. Grande Sertão, porque a exposição me inspirou. Mas não era o livro certo para ler daquele jeito. Decidi trocar por um livro de contos, fui no Primeiras Histórias, mas ao lado do Rosa estava o Roque. Luiz Roque, e eu achei uma coincidência absurda encontrar um dos livros do meu professor de química do colegial na biblioteca da Casa das Rosas.

Para um químico, uma pessoa das ciências exatas, exímio enxadrista, até que os contos dele são bem fantásticos. Como diz o título do livro, aliás. São minicontos de até uma página e meia, e os que eu li parecem fragmentos de sonhos.


Saí de lá, voltei pro Shopping Metrô Santa Cruz onde eu tinha largado o carro. Do último piso do estacionamento o pôr do sol estava bonito, tirei umas fotos.

Esses dias que passo sozinho devem ser a única coisa boa de estar solteiro. Mas abriria mão deles fácil, fácil.

Não terminei o meme dos filmes, né? Nem vou.

4 de outubro de 2009

Não tem nada mais eu no mundo do que você

Steven Paul "Elliott" Smith (6 de agosto de 1969 - 21 de outubro de 2003) foi um cantor, compositor e músico americano. Nasceu em Nebraska, foi criado no Texas, mas viveu a maior parte de sua vida em Portland. Tocava guitarra, piano, clarinete, baixo, bateria e gaita. Tinha uma voz quase sussurante. Tinha depressão, era alcoólatra e viciado em drogas, morreu em 2003 com quatro facadas no peito. A autópsia foi inconclusiva se os ferimentos foram auto-inflingidos.


Antes de ler, dê play.

Após almoço em boa companhia, fui ao pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, para uma feira de universidades francesas. Era bem feira mesmo, com diversas tendas/balcões, uma para cada universidade. Algumas desertas, outras com filas decamétricas, como Sorbonne e Sciences Po. Eu esperava mais, mas das, sei lá, 40 instituições presentes, só umas 5 tinham cursos de artes. Dessas, algumas tinham só artes aplicadas (leia-se design - em todas as suas variações). A grande maioria tinha cursos de business e tecnologia, algumas tinham ciências biológicas.

Saí de lá com folhetos de 3 universidades. Fiquei meio decepcionado com isso. Justo a França, você pensa em França, pensa em arte. Mas depois pensei: talvez seja bom que tenha mais gente no mundo preocupada em fazê-lo funcionar do que em fazê-lo pensar em si mesmo.

Mas saí de lá meio na abstinência, então estiquei a visita ao MAM, onde estava em exposição o 31˚ Panorama da Arte Brasileira. Era de graça, então entrei. Esse ano decidiram fazer a mostra com artistas estrangeiros cujas obras eram influenciadas pela cultura brasileira. Bem interessante.  Um desses artistas era Adrián Villar Rojas, argentino de Rosário, 29 anos, vive em Buenos Aires. Sua obra exposta: Nunca esquecerei Brasil (Nunca olvidaré Brasil), com dezenas de livros coletados em suas perambulanças pelo país. Ele fez intervenções em cada um deles, com textos, desenhos, colagens, etc.

Um deles chamou minha atenção.

Tinha um texto manuscrito a lápis, letras miudas na folha de rosto. O título era Vida de Cristo contada para os homens de nosso tempo. Queria fotografar, mas não deixaram. Ao lado do texto um desenho de um homem ajoelhado na frente de uma lápide, com duas motocicletas voando em rota de colisão com sua cabeça. O texto (transcrito sic):

te amo
te amo
te amo e estou desesperada
te amo e estou desesperada
te amo e
te amo e estou desesperada
te amo e quero estar com você
sonhei com você, com seu rosto, com seu cabelo
NÃO acredito que seja real
você é mais real por fora que por dentro


não vá de novo
sonhe também
que você tinha um gatinho branco
com o rabo listrado
e que era você
e que te poderia te levar para todos lados
e
não tem nada mais eu no mundo
do que você
E como faço sem te ver
Que linda a sua musica
Que lindo você é
Você é o mais especial que já vi na vida
choro e choro
por você e por mim
me dói a cabeça
se voltar a chorar eu morro
estou triste de amor
desesperada de amor
louca de amor


toda mi vida desperdiçada
vou pasar o tempo todo baixando musicas de Elliot Smith